Licuri


Pachuluca azuleja o dia

O mar de Camamu num apiário sertanejo. Esta é a versão lá de casa para a “espiga de milho no meio do cafezal”, atribuída a Euclides de Anna, o mais famoso do país antes de Eduardo de Marta.

Vixe Maria, de quem são estes olhos? Não são do pai, não são da mãe, não são cor de mel como os de André e de Luísa, não são dos tios... A pergunta indiscreta seguida dos não indícios não quer calar desde que Pachuluca abriu os que lindos olhos, que lindos olhos que ela tem. Alguns ainda não se emendam: este cabelo é pintado?

Já fotografei em Iaçu, mas ainda não copiei para botar na carteira (culpa destas malditas máquinas digitais), os quatro olhos próximos e absolutamente iguais da Pachuluca e do biso Rubem. Pena que os outros absolutamente iguais do biso Antônio só existam na foto P&B.

Mas vou dar meu troco. Se a coisa conseguir ficar ainda mais apertada, alugo Pachuluca para modelo e folgo. Não estes modelos de publicidade que as agências exploram via vaidade dos pais e pagam uma merreca. Vou alugar a menina por uma fortuna é para uma futura grande pesquisa genética/étnica, como modelo da síntese perfeita da alegria desta mistura que chamamos Bahia. Esta garota, além da felicidade 24 horas (só perde o humor quando chegam os dentes) traz no corpo o mapa perfeito da combinação Oropa/África/Sertão.

E se daqui a uns quize anos ainda não inventarem uma coisa menos polêmica do que esta tal cota ela vai empinar o nariz e o bumbum, sorrir e exigir: eu também quero!

Pachuluca, que também atende por Maricota ou Nicota Farofa, é boa de briga. E arteira. A mãe já notou que ela encontrou um meio de não levar pancada de Budegão nas horas em que surrupia algum dos seus pedaços preferidos de brinquedo. Antes de a porrada descer ela já corre, apóia uma mão na outra em cima do sofá, abaixa a cabeça sobre as mãos e abre o falso berreiro. Pronto, antes da descoberta da farsa pai, mãe e Luísa já deram bons berros em coro: Andrééééééé´!

E é teimosa. Basta o outro dar as costas, e ela ter a certeza de que ele não está por perto, para a cambotinha partir picada em direção ao baú de tranqueiras e se refastelar. Até que ele retorne. E então...

Dei dois grandes vacilos  mas não perco esta terceira chance. Pachuluca já está sendo treinada desde agora para me chamar como devem ser chamados os pais aqui nesta terra. Luluthica tem me ajudado nesta insistente e estafante alfabaianização:

_ Pa-in-nho, vai Maria, Pa-in-ho.

Ela fica séria e tenta:

_ Piau.

_ Pa-in-nho.

_ Papio

_ Pa-in-nho.

_ Piiio.

Já tá de bom tamanho!

 

PS: A frase de Euclides citada lá no começo foi lembrada neste fim de semana pelo tio marinheiro Popay Flávio, num dos intervalos do festival gastronômico do aniversário da Vó Conceição, em Feira, quando em menos de 24 horas a família colocou a fofoca em dia e caiu de boca no famoso  caruru/vatapá pega marido da Ceiça, numa mariscada com ingredientes da rampa do Mercado levados pelo quase capitão-de-corveta e sua comandante e numa feijoada/carneada baiana da Vó Mônica (os meninos têm duas vós maternas) que deixam no chulé qualquer destes restaurantes ranqueados no melhor de Veja.

 



Escrito por Marcus Gusmão às 05:27
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Luluthica que um dia foi Lego-lego

 

Eles envelhecem rápido demais. De repente não cabem mais nem no apelido.

Até outro dia era Lego-lego do papai. Hoje já usa Mall-Estar cor-de-rosa, prenúncio do vermelho dos primeiros raios de mulher. Luluthca vive atracada com um tal de Artemis Fowl, que descobriu sozinha. Nem a mãe sabe tudo, a indicadora oficial de livros, sabia quem era o tal. Entrou na fase de mãe que não faz a menor idéia.

Ela era tão bonitinha devorando todos de Pipi Meia Longa, todas as Crônicas de Nárnia, o Lobatão em edição completa comprado no sebo...

O google me conta que este tal Artemis é um garoto de 12 anos, dois a mais do que ela, e que tem o maior QI da Europa. [ Xiiiiiii, e se ela se encanta, se pica com ele e deixa o papai aqui a ver blogs, como fizeram com seus papais a Maria, o Cido e a Pururuca aí do lado?]

O jeito é ir se acostumando e ficar com Rubem Alves, que altera Gibran: “Ser pai é alegrar-se com o vôo do pássaro, livre, para longe, numa direção não sonhada”. Minha Luluthica ainda continua aqui no ninho. Não cabe mais no meu colo, já se incomoda com os hábitos toscos do pai (melhor não descrever aqui): ôôô meu pai... protesta. Mas continua carinhosa e doce. E procupada com meu peso. Virou fiscal de balança. Com sucesso.

Mas Lu ainda é capaz de passar o dia inteiro lá embaixo brincando de boneca com a meninada. Ganhamos uma prorrogação. E ainda conta (alguns) segredos. Normalmente depois de algum longo silêncio no trânsito, quando se queixa de algum menino chato [graças a Deus eles ainda são chatos], da professora do curso preparatório para o Colégio Militar, tão diferente das professoras que teve até hoje no Crear e na Lua Nova. [Coloco covardemente a culpa na pobre e inocente Pachuluca, que ano que vem toma o lugar dela no item mensalidade escolar no orçamento].

E ela vai crescendo, crescendo - já é maior que a avó. E segredando cada vez menos. Não somos amigos, somos pais. É assim e está certo.  Saudades do tempo em que ela chegou pra mãe com toda a confiança do mundo e propôs:

_ Mãe, vou lhe contar um segredo tão segredo, mas tão segredo, que você não pode contar pra ninguém, nem pra mim.



Escrito por Marcus Gusmão às 04:41
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Budegão, o guerreiro magricela

 

Dia amanhece nesta segunda-feira, Feira de Santana-Salvador. Os cincos viajantes balançam as cabeças na cadência das ondulações e buracos da BR 324. Uns sonham acordados, outros dormem. O silêncio trafega sobre o ruído contínuo do motor. De repente um grito:

Atacaaaar!

Algumas ordens ininteligíveis são dadas e o guerreiro magricela vira a cabeça para o lado e continua sua batalha em silêncio. Quem ainda estava dormindo acorda com as gargalhadas. Só não o guerreiro magricela que continua em sonho profundo. Naves? Cavaleiros? Ninjas?

Este Budegão vive a guerrear desde que nasceu. Primeiro nos seus primeiros cinco dias de apitos e picadas da UTI neonatal. Depois no semi-abandono após os quatro meses da licença maternidade com mãe e pai trabalhando o dia todo. E depois a eterna busca de espaço, sanduichado entre duas mulheres. 

Vive imprensado nos seus menos de cinco anos, entre a cabeça cheia de palavras e argumentos da 10 anos Lego-Lego e os olhos azuis ainda mais cintilantes na idade engraçada da Pachuluca de ano e meio.

E o guerreiro navega em busca de atenção. Sofre, porque não deu a sorte de herdar a memória da mãe. Herdou a vaga lembrança do pai. E como o pai, busca em frases recuperar as palavras esquecidas ou ainda não aprendidas. Esmalte vira aquela tinta que pinta unha de menina. Como o pai, das músicas só sabe o refrão.

Viajo segunda-feira, Feira de Santana, viajo segunda-feira, Feira de Santana, repete ao infinito, repetindo o pai que também avança muito pouco no refrão da canção de Tom Zé.

Do pai quer herdar a barriga. A mãe não cansa de elogiar os seus olhos amendoados cor de mel, sua cabeça de muitas fantasias. Já domina os plurais mas ainda se aperta nas pronúncias: álgum de sigurinha, caneta de hidropon. Uma coisa grande vira digantesca. Sabe tudo sobre seus super-heróis e como eles quase não anda, vive pela casa aos saltos. Quando tinha três anos, Lego-lego quis saber o seu signo:

Sou Libra e você?

Sou Homem-Aranha, respondeu com convicção.

Foi por esta época que a mãe um dia explodiu e clamou aos céus:

_ Eu não agüento mais. Minha vida é cuidar de menino.

Budegão, que até então estava invisível na cena, murmurou em protesto:

_ E de menina também!



Escrito por Marcus Gusmão às 17:01
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Cобака

Moscou, 1985. De repente entra no quarto uma garota. Não sei como burlou a segurança das babushcas na portaria da habitação coletiva. Bem crescidinha, insiste em fazer o tipo Lolita. Deita apoiada nos dois cotovelos em uma das duas camas e começa a falar. E fala, e fala, e interroga, e continua falando pelos cotovelos... Digo sim, não, não, sim, pode ser (da, niet, mojet bit). E só. De vez em quando fica apoiada em um só cotovelo, com a outra mão mexe na ponta de uma das duas tranças longas do cabelo preto, revira os olhos, faz caras e bocas e fala, e fala. Cruza e descruza as pernas enfiadas em um macacão jeans último modelo no mercado negro. Olhos negros, bochecha rosada, camiseta branca. E fala, e interroga, e fala... Eu continuo um monossilábico gago, ali parado, olhando para ela.

De repente ela fica muda. E faz a última pergunta:

_ E você não fala nada?

_ Não, mas entendo.

_ Ummmm, como cachorro. Entende tudo e não fala nada...

 

Lembro dessa história toda vez que ouço alguém dizer que entende uma língua. Passados 21 anos, continuo não sendo cachorro malmente em português. E apenas português do  Brasil.

Mas, voltando à menina de tranças, digo, miserável de tranças, descobri hoje, graças a são google, que para me humilhar ela havia feito referência a um ditado russo:

я как собака - все понимаю и вижу, а сказать ничего не могу...

Como um cachorro, tudo entendo e vejo. Mas não posso falar nada...

 

Lembro dessa história toda vez que ouço alguém dizer que entende uma língua. Passados 21 anos, continuo não sendo cachorro malmente em português. E apenas português do  Brasil.

Mas, voltando à menina de tranças, digo, miserável de tranças, descobri hoje, graças a são google, que para me humilhar ela havia feito referência a um ditado russo:

я как собака - все понимаю и вижу, а сказать ничего не могу...

Como um cachorro, tudo entendo e vejo. Mas não posso falar nada...

 

Taí, um bom ditado pra gente usar também ao testemunhar o indizível.



Escrito por Marcus Gusmão às 18:37
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Não consigo entender por que este país não dá certo.

Veja estas imagens feitas num bairro  de  Salvador por Tiago Risério. [Link colocado aqui a pedido de Márcia, enquanto ela não cria coragem e inaugura seu blog Marcianas. Antes da paella e do casamento]



Escrito por Marcus Gusmão às 12:44
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Sonhos

 

25  anos, coxo, vibra diante da tv com as jogadas de Messi. Quer passar pela peneira do Bahia para ser como ele.

 

35, virgem, leu escondida da mãe “O Veneno do Escorpião”, quer fugir de casa para trabalhar num bordel de luxo, atender num flat e escrever um livro.

 

45, desmemoriado, confere quase tudo que escreve no google, quase nenhum senso de ridículo, ególatra, vê entrevista com  Joanatan Froer na Globo News na madrugada, fica encantado,  confere como se escreve Joantan Froe no Google,  escreve um post... volta depois, conserta cocho para coxo [acredite].

 

Aos 28 será como Joatan Froe?

Não consegue no babel fish saber exatamente o que significa dumb. Suspeita, pelo contexto, que seja imbecil a sua [própria e da palavra] mais completa tradução.  

 



Escrito por Marcus Gusmão às 05:21
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Tsssssssssssssssssssss!!!

 

 

Incutido é pior do que doido, diria sua avó. Incutido não, focado, diriam os psi que ainda acham que DDA não é loucura.  Passei a semana incutido, focado, com o juízo transpassado pela seguinte questão: O que é marca? Marca é o conteúdo simbólico que conecta um produto ao cliente.

Gostou? O professor doutor que nos assistia, a mim e a Marcinha, ficou pensativo, ensaiou concordar, mas desconfiou. Quem escreveu isso? E foi taxativo: Não pode, só com doutorado. Acredite.

Mas aqui no Licuri pode e então eu me atrevo a emitir outra opinião, esta amparada pelo meu doutorado infantil em Sertão:

Marca é ferro em brasa no juízo.

Ainda ouço na memória o berro de dor, o mugido junto com o esticar das patas do garrote deitado, a fumacinha subindo, o cheirinho de queimado, o bicho em disparada depois de solto. Pronto, agora tem dono.

Temos muitos donos. Todos com sua marquinha cravada nos nossos cérebros e corações loteados. Isto não é uma queixa, é constatação.

Coca-Cola, Microsoft, IBM, GE, Intel, Nokia, Toyota, Disney, McDonald’s, Mercedes-Benz...Ter marcado o juízo de bilhões de garrotes no mundo inteiro rendeu somente a estas top 10 a avaliação de U$ 396,569 bilhões. Bilhões. Não, isto não é a soma dos ativos das empresas. É só a marca, o tal valor intangível, que me lembra Disparada: intangível ferro engorda e mata. Que me lembra Admirável Gado Novo: ...povo feliz.

Depois da aula continuei matutando sobre marcas.

Mas por quê elas valem tanto? Tenho um palpite. Você adquire um produto com a ilusão de estar comprando. Na verdade, você está se vendendo. E pagando por isso. Claro que uma parte do que você paga é para cobrir os custos de produção e o lucro. Mas esta parcela é cada dia menor. Ao se vender pagando, você passa a pertencer ao tal ativo intangível da empresa. E mais. Parte desta fábula que valem as marcas é calculada pela quantidade de vezes que você vai estar disposto durante a vida a adquirir aquele produto. Peraí? Além de se vender comprando você ainda é alugado pro resto da vida sem saber?. Isso mesmo.

A marca não contém nada além de nós todos. Nós é que pertencemos a ela. Estamos definitivamente ferrados. Tssssssssssss!!!

 

Por falar nisso, já foi buscar seu Snoopy?



Escrito por Marcus Gusmão às 02:21
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McBarba Feliz

Suco? Coca?

O próooooximo!



Escrito por Marcus Gusmão às 07:32
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Licuricídio

Matei o Licuri ontem à noite depois de um meio show de Nando Reis.
Se arrependimento ressuscitasse...
Ressuscitou apenas o nome e o endereço www. O resto é mar.
É tudo o que não quero contar.
E como sou ególatra mas não autista, estou de volta à rede. Sou peixes.
É impossível ser infeliz sozinho.



Escrito por Marcus Gusmão às 07:17
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BRASIL, Nordeste, SALVADOR, PITUBA, Homem, de 46 a 55 anos
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